- Papi, quantos frangos vc comeu na vida?
- Como vou saber isso? Eu não faço contas com a comida.
- Papi, se tu tens 53 anos e cada mes recebes uma libra de frango do açougue, só tens que saber quantos meses vivestes. Quando tiveres este número o divides por quatro libras , que é mais ou menos o que pesa um frango normal.
- Minha filha, quando eu nasci os frangos não vinham pela libreta (de racionamento)
- Ah papai, tu queres me fazer acreditar que antes, nos açougues, te vendiam todo o frango que quisesses…
Esse para mim é o diálogo mais impressionante do livro “De Cuba com Carinho”, de Yoani Sanchez – que estou lendo desde a semana passada. A autora cubana começou a escrever um blog há pouco mais de dois anos e provavelmente não tinha ideia da proporção que ele tomaria. Tanto que logo virou um livro. Em Generación Y ela conta as histórias de sua vida e do dia-a-dia. Seria um blog-diário como outro qualquer, não fosse o fato de que Yoani vive em Cuba, um país que insiste em um sistema que já se provou falido. O fechamento do país, que inicialmente se justificava para preservar a produção interna, já mostra sinais de cansaço – como um velhinho debilitado que insiste em dizer que tem forças para morar sozinho.
Os relatos de Yoani Sanchez chocam. Como é possível viver em um país em que internet, hotéis e outros “luxos” estão lá somente para atender aos turistas? Num país que decide se você pode ou não comprar uma tv/casa/frango/passagem para o exterior? E ainda assim escolher ficar em vez de fugir?
Felizmente a internet permite que, apesar de não poder deixar legalmente seu país, os cubanos consigam se espalhar pelo mundo, com seus relatos e protestos. Yoani se finge de estrangeira para usar a internet em hotéis. Usa o twitter pelo celular. Assim vai fazendo a sua parte para que algo finalmente mude por lá.
Hoje, 20 de outubro de 2009, é dia de blogacción pelo mundo. Cada um ajudando do seu jeito a espalhar ainda mais o apelo de Yoani e todos os cubanos:
Se me ocurre usar los kilobytes, acogerme al filo de la palabra que es también cortante y hace crecer preceptos más duraderos que el machete. Recorran la red, pues, los cinco puntos de esta blogacción como el toque a degüello contra el control, el autoritarismo y la censura:
- Libertad de opinión
- Libertad de acceso a Internet
- Libertad para entrar y salir de Cuba
- Libertad de asociación
- Libertad para los presos de consciencia
- Libertad para Cuba
Yoani Sánchez



3 respostas Até agora ↓
Dilan Camargo // 20, Novembro 2009 às 4:51 pm |
Também estou lendo esse relato doloroso, triste, de desencanto e desesperança de Ioani Sánches. O Brasil, que deseja ostentar a condição de “uma das maiores democracias do mundo ocidental”, já deveria ter-se engajado diplomaticamente em uma ampla campanha de solidariedade internacional ao povo cubano, em busca da construção de uma sociedade e de um Estado democráticos em Cuba.
Delman Ferreira // 23, Novembro 2009 às 2:45 am |
Sugiro que vocês leiam um cara chamado Dennis Lehane, ele excreve livros policiais. O livro mais conhecido é “Sobre Meninos e Lobos”. Interessante nos livros do Lehane é que ele faz uma descrição da vida dos submundos dos Estados Unidos. A vida daquele pessoal que não aparece em Hollywood ou nas propagandas estadunidenses. Dos bairros pobres, dos guethos, das escolas públicas. São milhares de milhões de pessoas que vivem na auto-denominada “maior democracia do mundo”, na maior potência bélico-econômica mundial. Milhões de pessoas que vivem sem internet, sem escolas decentes, sem saúde, sem alternativas, sem esperanças, sem Estado. Quando saem dos guethos ao qual estão condenados são duramente descriminados, etc, etc, etc.
tonaoto // 30, Novembro 2009 às 6:56 pm |
Eu acho que não precisamos ir nem pro 8 nem pro 80. Ambos os lados precisam ser questionados e revistos.