Ao meu lado, no ônibus, sentou um rapaz moreno, estatura mediana, daqueles que entram na categoria fortinho - nem magro nem gordo. Calçava tênis adidas bege claro com três listras brancas e já meio acinzentadas pelo tempo tempo. Vestia uma calça jeans escuro com desbotados na parte da coxa e alguns desgastes propositais que entraram na moda por algum inexplicável motivo. Vestia também uma camiseta vermelha de um cursinho pré-vestibular que estampava, nas costas, “Fiz [nome do cursinho], estou tranquilo”.
O cabelo era daqueles que só se penteiam uma vez ao dia. Raspado dos lados, estilo milico, a parte de cima cuidadosamente penteada para a frente, formando um mini topetinho acima da testa. No rosto, a barba por fazer denunciava um cavanhaque, ou vice-versa. Levava no colo uma mochila preta com bolso específico para ipod, decorada com elásticos vermelhos cruzados na frente – aparentemente sem alguma utilidade específica.
Mas eu não teria reparado em nada disso, não fosse por um detalhe: meu vizinho de ônibus tinha as unhas mais lindas que já vi nas mãos de alguém na vida. Cada uma media entre dois e meio e três centímetros, uniformemente lixada na ponta e alinhada na base da cutícula, e finamente pintada em um esmalte perolado que hipnotizava o olhar em busca de alguma imperfeição.
O que chamou a atenção para as unhas, em primeiro lugar, foi que o meu vizinho passava algo nelas com muita destreza em meio aos sacolejos do ônibus. Comecei a observar e, entre disfarçar o interesse e escancarar a curiosidade, optei pelo segundo:
- Desculpa, mas o que é isso?
- Uma caneta de cutículas.
- Como? (tirei o fone de ouvido para entender melhor)
- É (pigarreou), tu tira a cutícula e passa essa caneta durante um mês, e depois a cutícula não cresce nunca mais.
- Nossa! E onde tu encontraste isso?
- Comprei numa loja de importados ali no Centro.
- Um… são tuas?
- As unhas? São.
E então acabou o assunto. E o meu vizinho de ônibus seguiu viagem com as mãos sobre a mochila, os dedos esticados como quem tem medo de borrar o esmalte recém pintado.
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Coisas que as vezes fazem você respirar fundo e pensar: energia gasta em “água”. Mas não se pode negar uma coisa: o esforço em “ficar agradavelmente belo”, seja para quem que seja.
Não faria tais sacrifícios… mesmo se quisesse, não rola…
Abraços