Tô não tô

As unhas mais lindas

Ao meu lado, no ônibus, sentou um rapaz moreno, estatura mediana, daqueles que entram na categoria fortinho – nem magro nem gordo. Calçava tênis adidas bege claro com três listras brancas e já meio acinzentadas pelo tempo tempo.  Vestia uma calça jeans escuro com desbotados na parte da coxa e alguns desgastes propositais que entraram na moda por algum inexplicável motivo. Vestia também uma camiseta vermelha de um cursinho pré-vestibular que estampava, nas costas, “Fiz [nome do cursinho], estou tranquilo”.

O cabelo era daqueles que só se penteiam uma vez ao dia. Raspado dos lados, estilo milico, a parte de cima cuidadosamente penteada para a frente, formando um mini topetinho acima da testa. No rosto, a barba por fazer denunciava um cavanhaque, ou vice-versa. Levava no colo uma mochila preta com bolso específico para ipod, decorada com elásticos vermelhos cruzados na frente – aparentemente sem alguma utilidade específica.

Mas eu não teria reparado em nada disso, não fosse por um detalhe: meu vizinho de ônibus tinha as unhas mais lindas que já vi nas mãos de alguém na vida. Cada uma media entre dois e meio e três centímetros, uniformemente lixada na ponta e alinhada na base da cutícula, e finamente pintada em um esmalte perolado que hipnotizava o olhar em busca de alguma imperfeição.

O que chamou a atenção para as unhas, em primeiro lugar, foi que o meu vizinho passava algo nelas com muita destreza em meio aos sacolejos do ônibus. Comecei a observar e, entre disfarçar o interesse e escancarar a curiosidade, optei pelo segundo:

– Desculpa, mas o que é isso?

– Uma caneta de cutículas.

– Como? (tirei o fone de ouvido para entender melhor)

– É (pigarreou), tu tira a cutícula e passa essa caneta durante um mês, e depois a cutícula não cresce nunca mais.

– Nossa! E onde tu encontraste isso?

– Comprei numa loja de importados ali no Centro.

– Um… são tuas?

– As unhas? São.

E então acabou o assunto. E o meu vizinho de ônibus seguiu viagem com as mãos sobre a mochila, os dedos esticados como quem tem medo de borrar o esmalte recém pintado.

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Tô não tô

Susto na madrugada

Faz umas semanas já, mas tá valendo!

Um dia eu cheguei em casa e vi que finalmente meu quarto estava liberado. Era uma quarta à noite e decidi que naquela hora mesmo eu ia fazer a mudança: cama, escrivaninha, roupas, tudo pro quarto novo. Arrasta daqui, empurra dali, puxa pra cima, dobra, desembrulha, monta…

Ufa! Umas 22h fechei a porta do quarto e caí na cama, exausta, num sono profundo.

De repente, não mais que de repente, no meio da madrugada, um alguém abriu a porta do meu quarto com toda força do mundo! Olhei para o vão, era um vulto. Ai que medo! Levei o maior susto do mundo e só tive uma reação:

– Aaaaaaaaaaaaaaah. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Ouvia-se desespero saindo da minha garganta:

– Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!!

Percebendo meu pânico, a Elis, tadinha, foi logo se explicando:

– Deni, sou eu, Elis. Eu só queria abrir o quarto do Cris pra ventilar e sair o cheiro de cigarro.

E eu:

– Ai, Ê, desculpa, me assustei. Desculpa…

Ahahahahaah. Me assustei.

Jura?

No outro dia, lá pelas três da tarde, a Elis me chamou para pedir desculpas pelo msn. E foi aí que lembrei do ocorrido! Vejam só a profundidade do sono da pessoa!

Projeto Tocantins

O Psit

“Lá vem o Psit!”

É a senha. De bate-pronto, os mais vacinados colocam a mão sobre o copo, recolhem maços de cigarro e protegem seus pratos!

O Psit talvez seja a figura mais conhecida de Palm Springs. Ele anda pelo meio da rua, sem ligar muito que a calçada é logo ali. Sempre de roupas surradas e rasgadas, mas cada dia com uma roupa diferente. Não conversa, mas dá pra perceber que ele sempre sabe quando estão falando dele. Caminha com os pés descalços e sabe muito bem aonde ir nos determinados horários do dia.

Na hora do almoço, fica perto do restaurante de Palm Springs. Mas pela manhã ele já passou na padaria do supermercado Modelo e à noite sabe que canal é vagar pelos espetinhos e os bares. Ele fica na espreita e, quando menos se espera, avança na mesa de um incauto cliente em busca de um maço de cigarros, um copo de coca cola ou um pedaço de carne.

Tem gente que dá o que tem, só para que ele simplesmente saia dali. Só que o Psit sabe ser esperto quando quer e escolhe direitinho seu alvo. Ele já gravou quem tem cigarro e já vai direto pras mesas-chave.

É capaz de fumar um maço inteiro em menos de meia-hora, se tiver alguém para fornecer. Coloca o cigarro na boca e dá várias tragadas seguidas, sem se importar com a cinza acumulada na ponta, até que o último milímetro seja fumado.

Nas horas de folga, ele vaga pela rua sem destino, mordendo a parte gorda da mão e soltando grunhidos indecifráveis.

Cidade pequena é igual em tudo quanto é lugar, inclusive as das novelas. Quem não se lembra do Jamanta, Tonho da Lua, Emanuel? O Psit é o personagem doidinho de Palm Springs.

O Psit é daqueles de quem os adultos de afastam e as crianças têm medo.

Ele já fez um tratamento em Anápolis, patrocinado pela prefeitura, alguns mandatos atrás. Dizem que depois de internações e remédios fortíssimos ele chegou ao ponto de travar uma conversação com o motorista que o trouxe de volta. Chegou até a trabalhar. Mas aí não teve continuidade e voltou à estaca zero.

Reza a lenda que um dia algumas damas da sociedade, incluindo uma certa primeira-dama de então, resolveram fazer uma faxina no Psit. Levaram ele lá pro Apertado da Hora para um banho completo. Acontece que se encantaram com o tamanho do documento do rapaz, não resistiram e… ui, prefiro nem imaginar essa cena…

Psit com o documento à mostra, para desespero da Cláudia!
Outra mania do Psit é andar com os documentos à mostra (clique na imagem se tiver coragem)
Projeto Tocantins

Das tradições tocantinenses…

Curioso. Sexta-feira achei que tinha algo errado quando cheguei em casa no fim de tarde e na casa vizinha havia pelo menos dez bicicletas estacionadas. E pelo menos duas motos.

Entrei em casa e aqui fiquei. Deu pra perceber que o vizinho improvisou uma varanda na lateral da casa, com bambus e lona. Pelo muro deu pra ouvir que muitas pessoas conversavam, bebiam e até riam.

Umas três horas depois, quando fomos sair de casa para jantar, já estava escuro e levamos um susto: pelo menos uns 15 carros já tinham estacionado na rua e o número de bicicletas já havia triplicado!

Algumas pessoas conversavam descontraídas na frente da casa.

Em mais de um ano morando aqui na rua, jamais tinha registrado tamanho movimento! Mas logo foi possível deduzir uma coisa:

Se não é festa é velório.

Quando fomos sair de carro, lamentando que assim perderíamos nossa vaga, fiz questão de passar em frente à casa pra satisfazer a curiosidade. Posicionada na calçada da casa vizinha, uma placa iluminada dizia:

Funerária Santa Luzia – Luto em Família
Favor fazer silêncio.

É o famoso “beber o morto”. Como a cidade é pequena, todo mundo tem algum tipo de relação com alguém que conhece alguém que é parente do morto. Assim, velórios viram acontecimentos!

Isso sem contar o famoso carro de som:
É com pesar que a família de Saturnino de Brito comunica seu falecimento. O enterro será neste sábado às 11 horas da manhã