Projeto Tocantins

Oi e tchau

Então… daqui algumas semanas o Projeto Tocantins chega ao seu fim. Ao seu fim, porque o meu fim no Tocantins chegou dia 15/03, quando finalmente voltei a morar na civilizaçao. Sim, estou em Florianópolis deste então.

E isso explica o abandono neste pobre blog… sem TOCA no dia-a-dia, não tinha mais histórias pra colocar aqui.

Acontece que eu estava deixando pra voltar aqui e contar uma história bem legal dizendo que acabou o Projeto Tocantins e que eu estava indo para um lugar novo e bem mais legal. Só que esse dia ainda não chegou, eu não sei ainda pra onde vou depois do Projeto Tocantins e por isso acabei não vindo mais aqui…

Bom, este post é pra dar uma satisfação enquanto penso o que fazer com o blog!

Beijos

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Projeto Tocantins

O Psit

“Lá vem o Psit!”

É a senha. De bate-pronto, os mais vacinados colocam a mão sobre o copo, recolhem maços de cigarro e protegem seus pratos!

O Psit talvez seja a figura mais conhecida de Palm Springs. Ele anda pelo meio da rua, sem ligar muito que a calçada é logo ali. Sempre de roupas surradas e rasgadas, mas cada dia com uma roupa diferente. Não conversa, mas dá pra perceber que ele sempre sabe quando estão falando dele. Caminha com os pés descalços e sabe muito bem aonde ir nos determinados horários do dia.

Na hora do almoço, fica perto do restaurante de Palm Springs. Mas pela manhã ele já passou na padaria do supermercado Modelo e à noite sabe que canal é vagar pelos espetinhos e os bares. Ele fica na espreita e, quando menos se espera, avança na mesa de um incauto cliente em busca de um maço de cigarros, um copo de coca cola ou um pedaço de carne.

Tem gente que dá o que tem, só para que ele simplesmente saia dali. Só que o Psit sabe ser esperto quando quer e escolhe direitinho seu alvo. Ele já gravou quem tem cigarro e já vai direto pras mesas-chave.

É capaz de fumar um maço inteiro em menos de meia-hora, se tiver alguém para fornecer. Coloca o cigarro na boca e dá várias tragadas seguidas, sem se importar com a cinza acumulada na ponta, até que o último milímetro seja fumado.

Nas horas de folga, ele vaga pela rua sem destino, mordendo a parte gorda da mão e soltando grunhidos indecifráveis.

Cidade pequena é igual em tudo quanto é lugar, inclusive as das novelas. Quem não se lembra do Jamanta, Tonho da Lua, Emanuel? O Psit é o personagem doidinho de Palm Springs.

O Psit é daqueles de quem os adultos de afastam e as crianças têm medo.

Ele já fez um tratamento em Anápolis, patrocinado pela prefeitura, alguns mandatos atrás. Dizem que depois de internações e remédios fortíssimos ele chegou ao ponto de travar uma conversação com o motorista que o trouxe de volta. Chegou até a trabalhar. Mas aí não teve continuidade e voltou à estaca zero.

Reza a lenda que um dia algumas damas da sociedade, incluindo uma certa primeira-dama de então, resolveram fazer uma faxina no Psit. Levaram ele lá pro Apertado da Hora para um banho completo. Acontece que se encantaram com o tamanho do documento do rapaz, não resistiram e… ui, prefiro nem imaginar essa cena…

Psit com o documento à mostra, para desespero da Cláudia!
Outra mania do Psit é andar com os documentos à mostra (clique na imagem se tiver coragem)
Projeto Tocantins

O dia em que “roubaram” o Uno

Acabei de chegar de viagem. Era noite já. Na hora em que dobramos a esquina da nossa rua: “ué, cadê o Uno?”  Ontem quando saí ele estava exatamente aqui na frente de casa!!!

Nessa hora, três coisas passaram pela minha cabeça ao mesmo tempo:

1. Roubaram o Uno

2. Algum amigo precisou do Uno

3. Estão tirando com a minha cara

Acontece que o Uno vermelho mora na rua desde o dia em que o resgatei da garagem usando uma pinguela, e ficou impossível guardá-lo de volta.

Entrei em casa pra me certificar de que tudo estava aqui dentro.  Não, não tinha havido um assalto e sim, a chave estava aqui no porta-chaves! Logo, a hipótese de um “empréstimo” foi descartada.

Não acreditei no que vi quando não encontrei ele onde tinha deixado. Não é possível que alguém tenha roubado o Uno! Quem ousaria? Qualquer um que visse o Uninho andando por Palm Springs pilotado por um estranho notaria que alguma coisa está errada!!

Fui então perguntar na casa vizinha. Três velhinhos saíram lá de dentro e não sabiam de nada. Um deles disse:

– Olha, eu vi o carro hoje cedo, até tava passando as máquina do asfalto e eu ia falar com o meu sobrinho, pra ele tirar o carro, mas aí vi que não era o uno dele e aí …blablabla… 

Então ligamos pra um amigo, pra saber se ele sabia de algo – a possibilidade de estarem tirando uma com a nossa cara ainda não tinha sido descartada!

Mas não, ele não sabia de nada.

O próximo passo foi ligar para o prefeito: Se passaram com as máquinas do asfalto, é possível que um guincho tenha tirado o carro?

– Não, – disse o prefeito – e não foi hoje que passou a máquina, foi ontem!

Eu ainda não acreditava que alguém tivesse roubado o Uno Vermelho! Eu ria de nervoso, só conseguia rir!!

Até que a velhinha vizinha me chamou e disse que ia me mostrar um carro que ela achava estanho que estava num lote vazio aqui na rua. Eu não dei muita bola, e chamei a Cláudia pra ir à delegacia prestar queixa! Finalmente a ficha havia caído: roubaram o Uno em Palm Springs!

Foi então que um vizinho veio de longe falar comigo:

– Esse aqui sabe! – disse a velhinha vizinha.

Aí o moço começou a contar:

– Sabe o que é, moça? É que ontem os homens queriam passar as máquinas do asfalto. Eles precisavam tirar o Uno dali. Chamaram, chamaram, e ninguém atendia na sua casa. Então uma hora eu vi uma moça chegando [era a diarista] e ela me entregou a chave do Uno. Eu peguei o carro, coloquei ali naquele terreno baldio do lado da minha casa e devolvi a chave. Quando terminou o serviço do asfalto, não tinha mais ninguém em casa pra devolver o carro pro lugar.

Cláudia e eu rolamos de rir!!Mal conseguimos terminar de ouvir a explicação do moço!

Assim que me recuperei, atravessei a rua e lá vi, no meio do capim alto do terreno baldio, o Uninho querido estacionado esperando ser resgatado. Se ele não tivesse tão sujo, teria dado um beijo nele!! (não no vizinho, no Uno ahahaha)

Projeto Tocantins

Das tradições tocantinenses…

Curioso. Sexta-feira achei que tinha algo errado quando cheguei em casa no fim de tarde e na casa vizinha havia pelo menos dez bicicletas estacionadas. E pelo menos duas motos.

Entrei em casa e aqui fiquei. Deu pra perceber que o vizinho improvisou uma varanda na lateral da casa, com bambus e lona. Pelo muro deu pra ouvir que muitas pessoas conversavam, bebiam e até riam.

Umas três horas depois, quando fomos sair de casa para jantar, já estava escuro e levamos um susto: pelo menos uns 15 carros já tinham estacionado na rua e o número de bicicletas já havia triplicado!

Algumas pessoas conversavam descontraídas na frente da casa.

Em mais de um ano morando aqui na rua, jamais tinha registrado tamanho movimento! Mas logo foi possível deduzir uma coisa:

Se não é festa é velório.

Quando fomos sair de carro, lamentando que assim perderíamos nossa vaga, fiz questão de passar em frente à casa pra satisfazer a curiosidade. Posicionada na calçada da casa vizinha, uma placa iluminada dizia:

Funerária Santa Luzia – Luto em Família
Favor fazer silêncio.

É o famoso “beber o morto”. Como a cidade é pequena, todo mundo tem algum tipo de relação com alguém que conhece alguém que é parente do morto. Assim, velórios viram acontecimentos!

Isso sem contar o famoso carro de som:
É com pesar que a família de Saturnino de Brito comunica seu falecimento. O enterro será neste sábado às 11 horas da manhã